Foi quando eu a vi. Lá estava ela, sentada no chão cheio de almofadas, em toda a sua calma. Lá estava ela com aqueles cabelos castanhos que pouco passavam dos ombros, jogados para um só lado, como sempre. Lá estava ela com seus olhos quase do mesmo tom dos cabelos varrendo as páginas de um livro que lia com o máximo de concentração.
Não, minto.
Ela não estava lá.
Não realmente.
Eu a conhecia o bastante para saber que estava dentro de um mundo completamente seu. E naquele mundo pouco importava quem estava de fora. Será que ela sequer notava as pessoas à sua volta? Duvido. Era preciso surgir algo que realmente valesse a pena levantar a cabeça por alguns segundos. Não hesito ao dizer que isso raramente acontecia.
Mas ela era algo que fazia valer a pena eu parar o que estava fazendo por horas até, apenas para observá-la. Beleza é uma coisa extremamente relativa, sabe? Na verdade, acredito piamente que a beleza está nos olhos de quem vê. Talvez, para algumas pessoas, ela não fosse bonita. Talvez, para outras, ela fosse linda. Mas, para mim, ela era maravilhosa. (E aqui não me refiro apenas a sua fisionomia.) O ser dela era inteiramente maravilhoso. Seu corpo e sua alma. Duas coisas que, nela, eram tão intricadas que deviam ser uma só: corpoealma.
Sempre achei incrível o poder que ela tinha de vestir-se de um jeito que dissesse algo a alguém. Eu podia dizer como ela estava se sentindo apenas olhando suas roupas, e, naquele dia, ela estava radiante. Parecia carregar uma luz própria que emanava de sua pele meio morena, meio branca... Mas sem nunca ofuscar os outros. Ela era boa demais para isso. E eu acho que ela sabia. Ficava mais maravilhosa ainda quando se sentia confiante, sem nunca ser convencida.
Autossuficiência pode parecer um conceito ridículo mas, ali, vendo-a posicionada de um modo que, eu tinha certeza, resultaria em dores mais tarde, pude aplicá-lo a ela.